22 julho 2011

Os poderes

Eu poderia
na calada da noite, ao som da escuridão
desmerecer toda a história vã
que eu tenho contado ao mundo
um ato de coragem, de rebeldia, de cinismo
contra tudo aquilo que eu ainda acredito
(ou penso acreditar).

Eu poderia
dizer o que penso, o que sinto, o que sonho
mas eu não sonho
então não digo.
Desejo o que não posso esperar
espero pelo que pode nunca chegar
(e não chega nunca mesmo)
chegando a conclusão que não há.
o pensar, o sentir e o sonhar
não passam de maneiras sutis
de fugir de onde não há como escapar.

Eu poderia
no auge da minha agonia começar uma dança
mas eu ando tão sem graça
que a tristeza nem disfarça
a alegria de me encontrar
e me escolher como par
pra uma valsa.

Eu que poderia...
me descobri não podendo
não querendo
e nem sendo.
Só vendo.
Sofrendo.

Eu já não podia.

21 julho 2011

Inverno na alma

      A noite tenho sentido frio. Um frio que não é normal por aqui. Não sei se é o frio que vem de fora ou se é o inverno do meu coração. Parece o frio de quando estive perto de você sem, no entanto, te encontrar. Tenho certeza que nenhum frio seria igual ao frio que te toca quando faz frio.

      Esses dias tenho estado distante, fechado, doente. Entre causas e culpados, não se salva nem o passarinho que canta todo dia na minha janela. Ele não precisa esfregar a felicidade e liberdade a plenos pulmões antes da 7h da manhã. Me deixa ao menos pensar nos meus problemas em paz.

      Há o peso na balança. Há o peso dos fatos, dos atos. E há o insuportável peso dos dias passando. Quando penso no peso que terei carregado quando todos os dias passarem me pego desistindo. Do peso. Do tempo. Do mundo.

11 julho 2011

Se faltar a paz... Minas Gerais


      Eu pensei em escrever um relato da minha viagem a BH, a alguns dias atrás. Escrevi, apaguei, pensei, desisti, comecei de novo. Apesar de ter mais de 15 dias que voltei, algumas coisas ainda precisam ser assumiladas. O que aconteceu, o que poderia acontecer e o que não aconteceu.


      Dessa vez nada de cachaça, pão de queijo, café ou frio. Nada de trilhas, reuniões políticas, noites acordadas trabalhando. Se antes tudo era novidade, agora tinha um pouco de "mais do mesmo".

      Se nem tudo foi como o esperado, o inesperado também foi importante. Queria ter aproveitado mais, curtido mais, me chateado menos. Fotos foram poucas, conversas foram muitas. Ficou um gosto de quero mais.


      Parque Municipal, Praça da Liberdade, UFMG, Mercado Municipal, Savassi, Feira dos hippies, Lagoa da Pampulha (se arrependimento por não carregar uma câmera matasse...). Lugares não foram muitos. A vontade de voltar e conhecer o que faltou é enorme.

      Trago comigo a saudade e a lembrança de um céu riscado por aviões. Algum dia serei eu a trilhar meu caminho pelo céu de BH. Não sei quando volto lá, só espero que seja em breve e que não seja breve.

03 julho 2011

De parabéns! \o/

      Faltam poucos minutos para às 5h da manhã desse dia 03-07-2011. Não faltam mais nada para esse blog completar 5 anos de vida. Um parabéns a ele. Um orgulho para mim.

      Nunca imaginei que ao escrever a primeira postagem eu estaria aqui, após 5 invernos, escrevendo mais um texto. O blog mudou muito nesse tempo. Eu também. Cada vez mais vamos nos entendemos melhor.

      Não vou novamente falar da ladainha de que esse peçado de mim é importante, pois isso eu já fiz algumas vezes e não precisa ser repetido. Talvez o que eu tenha me dado conta só a pouco tempo seja o fato de que não fico mais empolgado ou me sentindo obrigado a escrever o que quer que seja por aqui. Se isso fez com que o número de postagem tenha diminuído, também fez com que eu perceba que o blog já está consolidado como parte da minha rotina. Hoje percebo que o apreço que tenho por ele não é mais uma paixão, dessas arrebatadoras, que chegam, mudam tudo e depois somem sem deixar saudade. Definitivamente não somos assim. É mais um caso de amor amadurecido, testado pelo tempo. Não se extinguirá com a próxima crise da relação. E elas não foram poucos, nem muito menos não acontecerão novamente.

      Pensei em fazer várias coisas por causa dessa data, mas acabei deixando tudo para lá. Não por achar que esse blog não mereça. Se pudesse eu faria sorteios, promoções e tudo mais que me fosse possível. Mas pensando bem o melhor presente que posso dar a ele (e a mim também) é continuar escrevendo. Já quem lê pode continuar acompanhando e, vez ou outra, comentando.

      Assim ele nasceu, cresceu e começou a caminhar por conta própria. Não preciso mais ficar me cobrando escrever algo com frequencia. Farei isso quando for prazeroso. Não sei se tanto para os que estão do outro lado (vocês que gastam suas vistas e seus tempos comigo), mas para mim é uma forma particular de alegria clicar no botão "Publicar Postagem" que fica aqui embaixo da tela de escrita.

      Agradeço aqui a tod@s que de alguma forma ajudaram a manter esse espaço. Idéias, histórias, comentários, incentivos. Continuemos todos a fazer as nossas partes, quem sabe não teremos mais 5 anos pela frente? ;)

      Tive pouco tempo para preparar qualquer coisa que fosse para esse momento especial, mas não deixarei passar em branco. Ao longo desse mês de Julho tentarei fazer mais algumas homenagens ao meu tão querido diá... quer dizer, blog. Quem sabe talvez até presentear alguém com uma edição impressa dos textos que mais gostei de escrever? Aguardem e torçam para que eu tenha tempo e disposição para isso.

      "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena". Então que "A vida em algumas linhas" não tenha um ponto final tão cedo. E que venham mais 5 anos.

28 junho 2011

Chegada. Mudança. Partida.


      Lá fora a tarde se vai, maquiada de espessas nuvens brancas. Um pássaro voa pra lá, uma pessoa caminha sozinha pela rua. O sol já se escondeu, não sei se por timidez ou por vergonha. Nada de pôr do sol hoje. Parece metáfora do que se passou do dia antes da hora em que não haverá pôr do sol.

      Mais uma vez o dia prometia ser especial. Anúncio de frio ao longo do dia, andar sozinho por uma cidade praticamente desconhecida, conhecer pessoas e lugares. Isso tudo gera expectativa, esse tempero da imaginação. Arrumei minhas coisas com antecedência, dormi mais que a média dos últimos dias para acabar não cansando antes da hora e levantei cedo para não me atrasar.

      Café da manhã, banho, rua. Daqui até o começo do passeio não dá nem 10 minutos a pé. Pode parecer pouco, mas foi nesse espaço de tempo que meu dia se estragou, me levando a simplesmente pensar em voltar mais cedo pra casa. Pra minha casa, a alguns milhares de quilometro de onde escrevo. Depois de caminhar um pouco por entre árvores e prédios, vi que isso de desistir era besteira. Mas a chateação e a tristeza ainda estão presente.

      Não esperava que tudo saísse como eu planejei. Isso seria sorte demais pra uma única pessoa. Mas quando algo repetidamente dá errado pode ser um sinal de que mudanças são necessárias, mesmo que tardiamente.

25 junho 2011

O mundo lá fora

      Eu trabalho dentro de uma sala que até uns meses atrás não tinha janelas. Alguns vidros nas paredes ajudavam a perceber o dia indo embora lá fora, mas não podia ser abertos para ajudar na ventilação, por exemplo. Era quase uma caixa selada com várias pessoas e computadores dentro. Nada muito legal.

      Recentemente foi feita uma reforma que colocou janelas na sala. O piso de carpete foi trocado por um de cerâmica, fazendo com quem as cadeiras de escritório com rodas alcancem velocidades jamais imaginadas! Agora os ar-condicionados ainda são um problema, mas não impede o trabalho.


      Mas porque falei mesmo esse monte de abobrinha?

      Desde a semana passada tenho viajado para o interior do estado por conta do trabalho, fazendo um levantamento para produzir um relatório sobre a necessidade de equipamentos para modernização dos postos. Parece chato, não? E seria, se fosse somente isso.

      No geral vamos em grupos de 4 ou 5 pessoas, o que deixa pouco ou nenhum espaço sobrando no carro. O motorista não anda a menos de 100 km/h. Faz um tanto de calor. Nem todo trecho de estrada está com o asfalto em boas condições e ainda vem acompanhados de motoristas irresponsáveis. Apesar de todos esses contratempos, a viagem é produtiva e divertida. Tudo bem, cansa um tanto ficar horas dentro de um carro indo de um lado pra outro, mas nada que o bom humor não resolva.

      Durante as viagens aproveito pra ver alguns lugares onde nunca estive e também tento bater umas fotos das paisagens. Outro dia estava na estrada e vi o sol se por atrás da serra da Miaba. Não deu para tirar fotos, mas tenho aqui na mente gravada a imagem. Se uma dia existir um meio de mostrar isso para as pessoas, eu o faço.

20 junho 2011

Suvenir


      Outro dia fiquei observando um passarinho no jardim. Um bem-te-vi lindo, grande e alegre que cantava por algum motivo. Talvez fosse só por cantar mesmo, tenho desistido aos poucos de encontrar a razão de tudo. Talvez seja a hora de sentir mais, de maneira pura e simples.

      Ver esse passarinho me fez lembrar de que um dia passarinhos simbolizavam bem mais que um bicho que voa. Era o símbolo de um amor. Então procurei por esse amor. Ele se foi. Não deixou nem um bilhete de até logo. Nem um adeus.

      Foi-se a época em que pássaros, tsurus e músicas me lembravam um amor. Um amor que se vai é um amor a menos e ter menos amor não pode ser bom. Andam faltando amor às pessoas. Um amor perdido não significa um novo amor a ser encontrado. Significa só que você tem menos amor que antes. E eu quero amor a mais, quero amar mais. Quero amor.

      Esse passarinho que simbolizava um amor nunca foi preso. Não existia gaiola que o prendesse. Não se prende um amor. Ou ele foge pela grade ou ele entristece e morre. O meu se foi. Sei que cuidei dele o melhor que pude e o deixei livre para ficar o quanto quisesse. Ou partir quando quisesse. Ele partiu.

      Não espero ele voltar e nem irei atrás dele. Se nos encontramos ao acaso uma vez, terá de ser o acaso a nos unir de novo. Eu tenho amor em mim, que dou e tomo quando e a quem quiser. Não peça, não cobre e nem compre o meu amor. Conquiste-o. Sem guerras, sem lutas, sem sangue. E assim como o amor-passarinho, ficarei pelo motivo de querer ficar.

      O passarinho foi embora e meu amor perdeu a forma. Anda amorfo por aí. Uma hora encontro um novo molde e o transformo em um amor diferente. Talvez num amor-fotografia, num amor-filhote-de-cachorro ou até num amor-amor (esse é difícil de explicar). Pode ser outro amor-passarinho. Desde que seja amor.

17 junho 2011

Contraluz


"Conferindo: câmera, ok; lentes, ok; cartões de memória, ok; baterias, ok; flashes, ok.

Em breve chegaria a modelo e ele teria mais uma tarde de serviços. Apesar de nunca ter pensando em ser fotógrafo, as coisas foram acontecendo naturalmente que hoje ele não se imaginava fazendo outra coisa para ganhar a vida. Assim como em qualquer profissão, havia bons e maus momentos. Particulamente preferia trabalhar com paisagens naturais e passantes desconhecidos de ruas, mercados e festas, mas também sabia que o que mais rendia dinheiro (e nome) eram católogos de modas e books. Não que esses fossem de todo ruim, mas era comum se deparar com mocinhas de 15 anos que são um pé no saco e pessoas que só queriam fazer as mesmas fotos que os avós faziam quando era jovens.

Seu renome ainda não permitia recusar trabalhos, então ainda aceitava alguns que de antemão sabia que não seria dos mais prazerosos. Seu sonho não era ser fotógrafo da capa da Playboy ou da Vip, mas ter ao menos uma fotozinha numa página qualquer da National Geographics. Se isso uma dia acontecesse ele se sentiria realizado e qualquer outra coisa depois disso seria besteira. Vez por outra ele enviava uma foto pra redação da revista, esperando ao menos uma resposta diferente do tradicional email autómatico afirmando o recebimento do arquivo. Ainda chegaria o dia.

Estava ali, no quarto de um hotel antigo no centro da cidade, aguardando a chegada da contratante. Pelo que tinha conversado, seria uma ensaio simples, feito naquele próprio quarto, com uma temática retrô. Apesar da idade o hotel se mantinha conservado e possuia um certo charme. Devia ter sido construído pela década de 50 ou 60, passado por poucas e restritas reformas, chegando aos dias de hoje misturado ao mar de fachadas e luzes que é o centro de uma cidade grande. Esperava que o trabalho não durasse mais que 2h, podendo aproveitar um pouco a luz do fim de tarde para fazer umas fotos na rua.

Eis então que alguém bate a porta. Há muito fazer trabalho para pessoas com quem ele nunca trocou mais do que três telefonemas deixou de ser algo que o deixava nervoso. Antes havia o medo de ser um trote ou até mesmo uma armadilha pra roubar os equipamentos (quem conhece um pouco de fotografia sabe o quanto isso custa caro). O tempo e a experiência o ensinou a separar o jôio do trigo.

Abriu a porta e se deparou com uma garota. Houve uma pequena exitação quanto a deixá-la entrar ou não. No telefone ele havia tratado com uma mulher que seguramente tinha a voz de quem já viveu ao menos umas 30 primaveras, enquanto que a pessoas à sua frente não deveria ter chegado a maioridade legal. Perguntou o nome dela, para confirmar que se tratava da sua cliente. Ela mostrou a identidade como resposta, provando ser quem dizia (e também confirmando sua análise inicial: 17 anos). Entraram os dois no quarto e ficaram em silêncio durante um tempo. Sendo ele a parte experiente da dupla, tratou de começar a conversar. Sabia que boas fotos só se fazem quando não há um clima de tensão e insegurança. Foi tentando aos poucos dizer como faria as fotos e em como ela queria que os desejos dela fossem correspondido. Calada, ela respondia com acenos de cabeça e sons não articulados.

Quando ela resolveu falar algo foi para perguntar se poderia se trocar. Ele disse que tudo bem, poderia começar logo a tirar as fotos. Ela carregava consigo uma mochila, provavelmente com as roupas e acessórias que gostaria de usar. Alguns minutos depois ela retorna, com um belo vestido longo, um chapéu channel, alguns brincos e colares, uma leve maquiagem pó de arroz e um sapato de salto. De alguma forma ela não parecia mais com uma garota de 17 anos, mas com uma bela jovem com seus 20 e poucos anos. Na mão, um LP. Ele achou estranho esse adereço, no que ela captou e disse:

- Isso não é para sair nas fotos. É pra fazer com que o clima do ambiente fique mais parecido com o que quero.

Curiosamente ela abriu um armário baixo e lá dentro se encontrava uma radiola antiga e, acreditem, funcional.

- Escolhi esse hotel depois de procurar bastante. A radiola é minha, trouxe pra cá hoje mais cedo. - Disse ela, demonstrando uma segurança na voz que não condizia com sua aparência inicial. Logo começou a tocar uma música francesa, com cara de filme antigo. Como se fosse mágica, um sorriso brotou no rosto dela. Pareceu ficar iluminada.

- Então, vamos começar? - disse o fotógrafo, começando a gostar daquele serviço. Pouco a pouco foram explorandos os ambientes, as luzes, as poses. As fotos saiam com naturalidade, ele pouco tendo que orientá-la. De vez enquando se pegava admirando os olhos dela pelo visor da câmera, era como se eles quisessem dizer algo. Um olhar de... desejo? Logo ele espantou aqueles pensamentos, devia ser besteira da parte dele. Depois de algum tempo, deram uma pausa e foram dar uma olhada nas primeiras fotos.


- Está gostando? - perguntou o fotógrafo.
- Estou - respondeu ela - mas acho que está faltando algo.
- O que seria?
- Ainda estou me sentindo um tanto adolescente nas fotos. Queria algo mais adulto. Nunca tive vontade de fazer um álbum quando completei 15 anos, mas agora quis fazer algo que eu não ficasse com vergonha de mostrar depois. Também quero algo bem feito e andei olhando seu trabalho e gostei do seu estilo de foto.
- Ah, obrigado. Quanto as suas fotos, o que você sugeriria para deixá-las mais a seu gosto?
- Pra começar, estou achando que estou me sentindo presa. Como imaginei que isso poderia acontecer... aceita um pouco de vinho? - disse isso já abrindo o frigobar e tirando uma garrafa de tinto, devidamente gelada. Nem esperando a resposta, serviu duas taças. - E acho que está na hora de mudar de roupa de novo. Volto já. - entregou a taça ao fotógrafo e foi se trocar.

Ele tomou um pequeno gole do vinho, mas não tinha intenção de bebê-lo todo. Além de não ser dos mais fortes para lidar com álcool também preferia manter a concentração por completo. Aquilo era trabalho, afinal.

Ela voltou com um vestido mais curto com decote, um encharpe, um batom vermelho e o cabelo preso. Trazia a taça vazia, com marcas de boca por todos os lados. Usava também luvas brancas, até a altura do cotovelo, e brincos longos. Ele de certa forma se surpreendeu como uma garota tímida estava conseguindo se transformar... numa mulher. Sem saber porque, tomou um gole demorado de vinho enquanto a observava. Ela deu um ligeiro sorriso, achando aquilo engraçado e ao mesmo tempo provocador.

- Queria tirar algumas fotos pelo corredor, pela escada. Como se estivesse voltando pra casa depois depois de um encontro, encantada, pensando no que aconteceu. O que você acha?

- Você realmente sabe o que quer. Dá próxima vez me avisa o roteiro com antecedência, posso pensar em algumas coisas também. - dizendo isso ele deu uma risada.

- É, eu sei o que quero. E normalmente consigo o que quero. - falou, olhando bem nos olhos dele.

Recomeçaram na porta do hotel, pela calçada. Ela seguia como que desfilando, flutando por entre as pedras velhas do calçamento que já vivenciaram tantas histórias. Ela realmente parecia estar apaixonada, radiante com um novo amor. Entrou na pequena recepção do hotel distribuindo sorrisos para todos os lados, sendo retribuída pelo recepcionista. Começou a subir a escada devagar, no que deu um parada e olhou pro fotógrafo por cima do ombro. Ele se pegou sendo surpreendido novamente pela sensação de que aquela garota de alguma forma o tentava conquistar. Entre um lance e outro de escada havia uma janela, ela parou e ficou observando os telhados e as nuvens. Não havia pássaros cantando, mas isso pra ela não fazia a menor diferença. Até que ponto aquilo era encenação ou era realidade, o fotografo não sabia, mas já estava se sentindo envolvido com aquilo. Olhava cada vez menos a garota como um trabalho e passava a vê-la como... uma garota apaixonada.

No corredor do quarto ela foi rodando, como se fosse uma bailarina, fazendo o encharpe dançar no ar ao compasso dos seus passos. Ele foi registrando tudo aquilo, se perguntando se as fotos ficariam tão boas quanto o que via com os próprios olhos. Finalmente entraram no quarto, ela se dirigiu a cama e ficou deitada, olhos fechados, o rosto, tocado suavemente pela mão esquerda, com o semblante radiante. O disco ainda tocava baixo, fazendo ele pensar que realmente estava numa outra época. Deixou de fotografar e ficou admirando a cena. Foi trazido a realidade pela voz suave dela (parecia, na verdade, ser outra voz):

- Como será que ficaram as fotos? Acho que agora ficaram realmente boas!

- Temo que as fotos não saiam tão boas como deveriam. Honestamente, acho que nenhum fotografo faria juz ao que pude ver.

- Assim você me deixa envergonhada.

- Ah, desculpe. Não era minha intenção. Vamos ver as fotos?

Enquanto ele ligou a câmera no computador para visualizarem melhor as fotos, ela apareceu com as taças de vinho cheias. Dessa vez ele ficou com a taça com marcas de batom. Achou graça naquilo. Então sentaram no sofá e começaram a ver as imagens. Entre um arquivo e outro, entre um comentário e alguns sorriso, percebeu um leve perfume tomando conta do ar. Era dela. Perdeu a concentração por algum momento, viajando no sentido aguçado pelo aroma. No fim achou que as imagens ficaram boas, mas de forma alguma comparáveis ao que viu com os próprios olhos. Certamente ficariam melhores com alguma edição.

Achou que o trabalho estava terminado, havia material suficiente para mais de um book de boa qualidade ali. Começou a desligar cabos e guardar tudo quando a garota falou:

- Já acabamos?

- Bem, acho que sim.

- Poxa, eu ainda tinha mais algumas coisas em mente. Será que não poderíamos fazer só mais algumas fotos? Até pago esse horário a mais, se for o caso.

- Ah, não. Tenho problemas com o horário. Fui contratado pra fazer o serviço, não para contar as horas. Se você ainda quer fazer mais fotos, podemos fazer. Só alerto para o fato de ter muita coisa boa e depois vai ser díficil e demorado para chegarmos ao álbum propriamente dito.

- Não estou preocupada com a demora. Pelo menos não com essa. Vou me trocar pela última vez, depois disso eu prometo que está terminado.

- Fique a vontade.

Antes de se trocar ela voltou a encher as taças. Mudou o disco e levou sua taça contigo. Ele ficou a espera na sala do quarto, enquanto ajustava a câmera e trocava de lente. Pouco a pouco ele foi tomando o vinho, percebendo que dessa vez ela demorava mais que anteriormente. A tarde já ia embora, luzes avermelhadas invadiam o quarto pela janela, formando um belo gradiente de cores e desenhos na parede. O vinho já tinha subido a cabeça, ele se encontrava distraído, olhando para a janela quando teve sua atenção requisitada.

Parada na passagem que separava a sala do quarto, ela se encontrava encostada, taça de vinho numa mão, um cigarro aceso na outra, vestida com um espartilho e cinta liga, cobertos por uma camisola quase transparente. Tudo preto, contrastando com com a pela branca da garota. A luz do por do sol criava sombras naquela figura hipinótica. Ele não sabia o que fazer, então continuo olhando-a, de cima a baixo.

Aos poucos ela foi se aproximando, pé ante pé, enquanto tomava um gole de vinho e dava um trago no cigarro. Ele começou a fotografá-la de qualquer jeito. Ela desfilou de um lado para outro, cada vez mais próximo a ele, fazendo caras e bocas e poses. Ele já não tinha dúvidas de que ela queria seduzí-lo, como também não tinha de que ela já havia conseguido. Ele a desejava. Mas aquilo não era certo, ela era de menor. Uma menor que preparou tudo aquilo, de forma planejada, detalhe por detalhe... porém ainda assim ela era menor de idade. Ela tirou a camisola vagarosamente, deixando que ela escorresse pelo seu corpo até chegar tocar o chão. Manhosamente ela se abaixou para pegá-la e depois jogá-la na direção dele. O tempo que ele levou para tirar a camisola de cima da câmera foi exatamente o mesmo que ela levou para dar os últimos passos. Estavam parados frente a frente. Ela deixou a taça sobre a mesa. Retirou a câmera das mãos dele e também a colocou sobre a mesa. Empurrou-o sobre o sofá, sentou sobre o seu colo e soltou uma leve baforada de cigarro em seu rosto.

- Bem, acho que ainda preciso da máquina para fazer as fotos.

- Você não vai precisa de máquinha alguma para o que vamos fazer agora. E pode ter certeza que não serão fotos.

Se estudaram. A diplomacia do iminente tomou as rédeas do entrave. O silêncio dos olhares era inversamente proporcional ao som que os corações disparados produziam. Numa negociação em que a parte relutante (ele) não era convencida pela parte decidida (ela) apenas pelo olhar, lábios sedentos entraram em ação. Mordendo levemente a própria boca, ela se aproximou dos lábios dele. Estes institivamente se entreabriram, certos da sua vitoriosa derrota.


Ela então começou a recolher seu espólio de guerra. Primeiramente, um beijo. O que tomou pra si depois não entrou nos livros de história...

03 junho 2011

Basta um sopro


      Era belo! Dos mais vistosos, diriam alguns. Incontrolável, diriam outros. De qualquer forma, dava gosto vê-lo no ar, brilhante, vermelho. Vivo. Mas não souberam cuidar de ti. Sem quem o mativesse, foi perdendo a razão de ser. Definhou. Vazio, murcho. Quase um vácuo. E de que me serve assim? Qual a alegria de não poder voar quando se foi feito pra viver nas nuvens? Esse cordão que antes segurava, agora pendura. Se for pra ser assim, eu quero mais é que exploda, por não suportar a pressão do que pulsa por dentro! A asfixia da vida sem par, colabado que está, não se permite novos ares. É preciso força para romper a resistência do estar não-contendo. Quase sempre uma solidão oca. Não há beleza na forma amorfa e sem vida. Nem por fora, nem por dentro. Por fim, a degradação. Furos, rasgos. De "não-usado" passou a "imprestável". Melhor desistir do céu azul, o seu futuro à terra fria pertece.

      Mas nada precisa ser desse jeito! Enquanto é tempo, basta uma breve lufada de esperança, quente e leve. Depois, sopros e sopros de ternura, de carinho. Inflado, vai tomando forma e cor. Já não penderá sobre o duro frio do chão. Com os cuidados que a entrega e atenção permitem, será capaz de voar, de sentir. De sonhar. É, coração, talvez você ainda ainda tem salvação.

30 maio 2011

Sobre amar

- Oi!
- Oi!
- Vim o mais rápido que pude. Como você tá?
- Agora eu estou bem, acho até que estou feliz.
- É mesmo? Porque?
- Bem, descobri que não quero mais te amar.
- Mas porque?? Eu gostava tando de você me amando! E você também parecia gostar!
- É eu gostava, mas comecei a perceber que estava me fazendo mal.
- De que forma o amor lhe fazia mal? Amar pra mim é algo tão legal.
- Eu acho que te amo demais e isso faz com que eu me ame de menos.
- Então me ame menos e se ame mais, assim continuamos os dois se amando.
- Você já ouviu falar de coração que aprende a amar menos depois que já provou o sabor de amar muito? Eu não conheço. Só resta deixar de amar.
- Poxa, mas o amor da gente era tão bonito. Como eu vou ficar agora? Amando só?
- Não sei. Não pensei nisso.
- Amar só não é bom. Machuca e depois cicatriza, pra machucar novamente logo mais na frente e então cicatriza de novo. É uma ferida que nunca sara.
- Mas ainda é amor, não foi você quem disse que amor é legal?
- Sim, é amor, porém um amor feio. Você conhece algum coração que depois de ter contemplado a beleza de um amor vai se contentar com a feiura desse mesmo amor? Eu não conheço.
- É, acho que você tem razão.
- O que faremos agora?
- Acho melhor você deixar de me amar também.
- Anda tendo tão pouco amor pelo mundo, porque temos que acabar com dois (ou seriam três: o de um, o do outro e o dos dois)?
- Seu continuar te amando vou acabar deixando de me amar, o que vai fazer com que meu amor acabe. Sem amor próprio eu também não terei como te amar, logo sem seguida o seu amor por mim também acabará. Melhor não nos amarmos agora que podemos evitar o pior.
- E porque não podemos apostar no amor? Ele pode mudar, podemos fazer com que ele seja bom para nós dois. Prefiro arriscar deixar que um amor morra naturalmente porque ele não tinha mais o que amar que matar um amor por puro exercício de futurologia!
- Talvez você tenha razão, o que por si só é estranho, porque o amor não é racional.
- Estranho é você dizer isso! Quem começou com isso de racionalizar o amor foi você!!
- Sabe de uma coisa? Esqueça tudo... eu te amo!!
- Pois agora sou eu quem não te ama mais!!
- Mas porque?!?!?
- Não quero alguém que vê o amor como uma massinha de modelar, que o pega nas mãos e o transforma a seu bel prazer. Quero alguém que veja o amor como um vento: livre e leve, mas ainda assim capaz de pouco a pouco carregar uma montanha. Adeus.

29 maio 2011

Moça

Ah menina moça
você chegou fazendo graça em minha vida
sem pedir licença atravessou o meu caminho
foi se aninhando em meu pensar
cada dia, um graveto
sorrisos, olhares, afetos
fazendo sonhar um coração.

Ah menina moça
você chegou trazendo cor e alegria
e sem dizer porque se colocou em meu destino
agora o que faço?
O pensamento viaja a sua procura
sem te achar onde alcanço
te amando em segredo.

Ah menina moça
você chegou iluminando a tarde
o vento da praia carinhando o seu corpo
inseguro, não sei se te chamo
ou se te amo em silêncio
Um sorrisso seu e tudo muda
o mundo não é mais o mesmo.

Ah moça
agora que te tenho comigo
deixa o tempo passar arrastado
enquando meu colo é sua morada
meus carinhos se embolam na suas risadas
antes de ti eu sentia falta de tudo
agora não preciso de mais nada.

23 maio 2011

Ciclo

O dia acorda, a vida começa
cama, banheiro e mesa
lava, varre, arruma
não precisa ter pressa
porque o dia só tem graça
depois que ela chega.

Estudo, lanche, rotina
almoço, corre, é hora!
mas antes do trabalho
fica tudo mais lindo
eu vejo ela chegar
e me vou sorrido

A tarde passa voando
digita, deleta, imprime
organiza, encaderna e guarda
deu a hora de ir para casa!
Pelo caminho nela vou pensando
Por isso volto sorrindo

Vento frio, lua, estrelas
banho, janta, chuva
Não temos muito tempo
(ele nos enfrenta, inimigo)
a noite acaba na exata hora
que não tenho mais você comigo.

20 maio 2011

A dois*


      "A Lua é conhecedora de muitos segredos. À noite, enquanto ela passeia pelo céu enfeitada de estrelas, observa o que se passa aqui embaixo.

      Era noite de chuva e fazia frio. Dona Lua procurou pelo que há de melhor nessas horas: casais. Algo de instintivo ainda corre nas veias humanas que faz com que se aproveitem das horas de frio, deixando o sangue esquentar e os desejos fluirem. A Lua sabia disso.

      Começou a observar cada praça, cada praia, cada carro. Encontrou uma janela aberta, com uma fraca luz de vela iluminando duas pessoas deitadas numa cama, conversando descontraidamente enquanto se estudavam, se encaravam e se entregavam. Uma garrafa de vinho já tinha esquentado os sentidos, músicas insinuantes preenchiam o até serem evaporadas pelo calor dos corpos. Mas ainda não chegou a hora disso acontecer.

      Fingindo inocência, ela pede uma massagem. Fingindo bondade, ele atende ao pedido. Fingindo não ser nada demais, os dois vão se envolvendo com o clima. A Lua decide que seria ali que ficaria esta noite, pouco se importanto com o tempo. Afinal de contas o sol só sairia quando ela voltasse pra casa.

      Um pouco de óleo de massagem, mãos hábeis, costas nuas. "Delicate" tocando ao fundo. A cada palmo de pele tocado o fingimento ia se dispersando. A chuva caia lá fora, o vento frio invadia o quarto mas o calor só aumentava. Pouco a pouco as peças de roupas iam sendo tiradas, enquanto os corpos iam se aproximando. A barba roçando o pescoço causava arrepios nelas. As mãos delicadas tateando a coxa aumentava o tesão dele. Então os olhares se cruzam bem próximos, ao alcance dos lábios. Um beijo. Duas línguas. 5 sentidos trabalhando a todo vapor.

      No desencontro das bocas, ele começa a morder levemente as costas dela, descendo até o cóccix, deixando-a mais arrepiada ainda e ansiosa pelo que viria depois. Era hora de sentir e ser sentida. Extravasar o desejo contigo. Ela se liberta das amarras que o desconhecimento poderia, ainda, lhe ocasionar. Era livre para se entregar.

      Invertendo o comando, passou ela a fazer carícias nele. As mãos explorando o corpo masculino, até então intocado e inalcançável; os olhos atentos aos efeitos dos carinhos. Respirava ela colada a orelha dele, que vez por outra escutava sussurros impublicáveis. Mordidas também foram distribuídas por ela até chegar a boca alheia, quando então ficaram os dois frente a frente, ela sentada no colo dele. Trocaram um beijo molhado e ardente, as mãos leves e de dedos finos por sobre o peito, a vontade aumentando.

      Ela calculadamente para com as carícias, restando somente suas unhas marcando os braços do rapaz. O encara, provocante. Como resposta se vê em segundos deitada na cama, ele por cima. Como um lutador, segura-a pelas mãos e pesa o resto do corpo sobre a cintura. Ela não tem como sair. Aquilo provoca um aumento na excitação dela, ao mesmo tempo que ele morde sua boca. Então se vê encarando a parte mais protuberando dos seios dela, pronto para serem mordiscados e lambidos, cada um a seu tempo.

      Outro beijo acontece, invertem-se as posições, aumenta a temperatura. As mãos se juntam, se cruzam e descem até a cintura da garota, a diferença entre as temperaturas mostrando aos dois que havia muito a ser explorado, sem tempo a perder, sem hora para acabar. A cintura dela pressionando o volume crescente da cintura dele, mãos sendo amarradas, mais beijos e mordidas, uma boca chegando ao limite do sexo. Ela se toca para ele. Ele se livra dos nós, abraça-a e lhe arranha as costas. Joga-a de bruços na cama, agora sendo ela a amarrá-la, calculadamente deixando as mãos delas próximo à virilha, por baixo do dois corpos fumegantes. A barba agora estava arranhando a parte de trás da coxa dela, subindo até encontrar as mãos dela, que se masturbava intensamente. Ele invade-a com língua, os gemidos dela abafados pelo travesseiro, os gemidos deles abafados por lábios vaginais molhados e convidativos. Sorvido por ele parte do desejo que escorria por entre as pernas dela, as bocas voltam a se encontrar, os corpos mudam de posição, ela retribui a chupada, ele cada vez não se contem e a coloca por cima, penetrando aquela vagina apertada. A movimentação acontecia pouco a pouco, em busca do ritmo que levariam os dois ao ápice do prazer; ela rebolava cada vez mais vigorosamente, ele apertava-a pela bunda, puxando em diração a si. Ela fica por baixo, cruzando as pernas por trás das costas dele, ele enfiando com cada vez mais vontade e tesão. Ela gemendo sem pudores, arranhando qualquer parte do corpo dele que pudesse alcançar, massageando e apertando os próprios mamilos. Pela última vez ela fica por sobre ele, somente a tempo de sentir o gozar dele por dentro de si, o que desencadeia o gozar dela. Os dois, fracos, ofegantes, abraçados, fora de sintonia com o mundo, completamente sincronizados um com o outro, aos poucos vão recobrando os sentidos. Ele alisa o cabelo e as costas dela, ela lhe dá um beijo carinhoso e um abraço apertado. Ele é o homem mais realizado do mundo; ela pressentia que passaria dias abismada com aquilo. Os dois descansam.

      A Lua, invejosa e satisfeita do que viu decide que é hora do dia nascer. Manda uma estrelha acordar o sol e avisar que ela está voltando pra casa e ele tem que trabalhar. Então anota no seu caderno de segredos o que presenciou, mesmo sabendo que somente ela, além do casal, entenderia o que se passou naquela noite fria e chuvosa...


* Texto escrito, de certa forma, a 4 mãos. =D

09 maio 2011

Toque do passado

      Dia 03 de julho deste corrente ano haverá uma festa. Provavelmente só comigo mesmo. Meu blog completará 5 anos.

      Como presente pra ele (e, logo, para mim também) vou finalmente catalogar todas as postagens. Assim vou poder indicar as linhas que mais gostei de publicar aqui, reler o que escrevi e reencontrar velhos blogs já lidos. Essa é uma das coisas boas de receber comentários. =D

      Talvez eu pense em algum tipo de promoção, brinde ou o escambal, mas ficaria imensamente feliz se vocês que de alguma forma leram meus escritos e por ventura os acharam válidos para algo (mesmo que seja para dizer que são ruins) também deveriam pensar em algo. Comentários, textos para serem publicados aqui a partir do dia 01 de junho, fotos, vídeos. Fiquem a vontade.

      Ao poucos eu vou pensando melhor nisso tudo.

05 maio 2011

Realismo fantástico


      De vez em sempre recebo perguntas sobre o que escrevo aqui. Se um determinado texto é sobre alguém, se determinado fato é real e até mesmo se eu faço plágio de escritos menos conhecidos. Acho engraçado. Engraçado ao ponto de me divertir com esse tipo de dúvida. É da minha natureza rir do mundo. Como muitos me chamam, sou um bobo.

      Tudo que um dia foi postado aqui sou EU, com direito a caixa alta. Não necessariamente criado por mim, mas contextualizado, digerido e exposto ao meu modo de sentir e viver a minha vida. A tudo cabe interpretações pessoais e esse blog aqui é quase o ápice do que minha pessoa é capaz e se permite (precisaria de muito mais que palavras e fotos para chegar ao meu máximo e isso ainda não é possível por uma conexão e um computador). Tudo que eu crio é meu, com suas fantasias e veracidades, só fazendo completo sentido aos meus olhos e interpretações. Aos outros olhos de quem lê, pode significar muita coisa, inclusive nada. Se algum dia eu pensar em tornar-me escritor profissional talvez me preocupe mais com as diversas possibilidades de leitura dos meus textos. Por enquanto preocupo-me apenas em reconhecer-me nas minhas leituras posteriores. Sempre me encontro.

      O que por ventura for de outros autores é devidamente creditado, no geral no final do post, porém só estão aqui porque eu de alguma maneira achei que era válido.

      Mas o que é fantasia? O que de fato aconteceu e veio parar aqui? Resposta cult e/ou filosófica a parte, tudo e nada. As percentagens de cada ingrediente são aleatórias e ficam ao meu gosto. Mesmo que eu relatasse tudo da forma mais fria e direta possível não diria que seria A realidade. Seria, somente, a minha realidade. Outras pessoas que fizessem parte dos acontecimentos teriam opiniões e interpretações diferentes da minha. Não me atreveria a dizer que estão certos ou errados.

      Então qualquer pessoa pode se reconhecer nessas linhas. Eu me reconheço em tanta coisa que não foi feita por mim e me aproprio daquilo como parte irrevogável do meu ser e sentir. Não me importo se só faz sentido para mim, não vim trazer sentido ao mundo.

      Cada vez que encontro alguém que é capaz de sentir as mesmas coisas que eu em determinado momento me sinto maior. Agora aquela sensação daquela pessoa me pertence e as minhas pertencem a ela. Continuamos sendo únicos e ao mesmo tempo passamos a ser um só. Não conseguiu entender? Leia de novo a última frase do páragrafo anterior e já terá sua resposta.

28 abril 2011

Quando a chuva vem


      Mas que chuva é essa que cai lá fora enquanto a noite é escura? Será a chuva que lava a alma e enche de esperança o peito daqueles que estão secos de alegria ou será a chuva que dissolve os sonhos e os desejos, afogando cada célula de viver em descontentamento?

      Enquanto estiver no meu mundo não tenho que me preocupar com a chuva, ela não passará de respingos na soleira da janela. Não matará a minha sede nem me levará embora, mas ouvirei contente o batucar das pequenas gotas.

      Só que a chuva me chama, me atrai, me instiga. Talvez um anseio contra a minha aridez (há sempre um sertão dentro de nós esperando para verdejar), provavelmente a necessidade de transbordar o copo dos meus lamentos e desrepresar o se acumula nesse posso sem fundo que é a alma. Ei de ir lá fora arriscar. Enquanto isso deixo meu mundo desguarnecido do seu significado em si: Eu.

      Não espero ser o mesmo depois da chuva, há algo de metamórfico no ar que entremeia as lágrimas das nuvens. Apenas feche os olhos e sinta as pequenas mudanças que acontecem a da molécula de H2O que percorre sua percepção.

      Meu mundo sou eu. Mutado pela chuva, posso não ser reconhecido por ele e, portanto, não me reconhecer. É estranho ter que arrombar a porta e tomar de assalto o que já lhe pertence. Deixo a chuva lá fora, ela não faz parte do meu mundo e enquanto me livro das roupas encharcadas, penso se valeu a pena arriscar.

      Quem eu era? A chuva levou e nunca mais voltará. Quem eu sou? A mesma chuva não há mais de mudar. Quem eu serei? Nenhuma chuva pode afirmar.

26 abril 2011

Um pedaço completo

      Aqui onde estou posso ser o que quiser e não há quem ou o que possa me impedir do contrário. Meu quarto é meu mundo, meu reino. Exijo respeito a mim e a ele, sob pena de ter a cabeça cortada ou, ainda pior, ser malquisto nessas terras.

      Aqui onde estou a gravidade não pesa e o tempo não passa. São meus súditos e parceiros. O dia e a noite são meramente o estado da lâmpada que brilha e aquece, a um único desejo posso mudá-lo. A brisa que sopra ou o furacão que tudo arrasa vem do meu ventilador, resposável também que é do barulho do trovão.

      Aqui onde estou eu escrevo, toco, pinto e bordo como ninguém. Todas as melodias são minhas, todo os sentimentos e desejos também. Sou menestrel e platéia, com direito a aplauso e bis no final. Até me faço de bobo de corte e riu de mim mesmo. Acho isso tudo engraçado.

      Aqui onde estou sou diplomata e exército, juiz e juri. Minhas decisões são inapeláveis e, por isso mesmo, completas de justiça. Todos são bem vindos até que me mostrem, demostrem e comprovem disposição do contrário. Daí então a tranca da porta será serventia do reino (mas pode acontecer um indulto esporádico, sem muita periodicidade).

      E se, por bondade deste monarca que vos escreve, lhe for permitido usufrir do conforto e do aconchego da cama, saiba retribuir na mesma moeda. Sinceridade, respeito e um pouco de carinho são sempre bem vindos (melhor se acompanhados de alegria e companheirismo).

      Aqui onde estou tenho tudo que preciso. Por vezes eu sinto falta de algo e me descubro explorando outros mundos, outros reinos. Invado o covil, enfrento a fera e recolho meu tesouro. Então volto a viver no meu reino. Feliz.

22 abril 2011

Madrugada vazia

      A essa hora, quando quase todos dormem, eu fico esperando. Esperando. E não chega. Cadê?

      É na madrugada que me sinto mais a vontade, que sinto mais vontade. O silêncio e o escuro só preenchem meu quarto de vazio. Onde se encontra o brilho e a melodia desses momentos? Anda distante, bem distante. Será que volta?

      E o que era alegria e ternura se torna a insônia me puxando pelo braço para a cama vazia. Sem graça. Não aceito o travesseiro inodoro, imóvel, intacto. Tem como?

      Quem espera sempre sofre. Talvez, um dia, alcance. Espero ser está a minha sorte.

15 abril 2011

Suave

      O dia passa rápido quando se está leve. Aquela sensação de que tudo está certo, mesmo que esteja tudo da maneira que ontem, quando nada era muito bom. Quando você quer que o tempo passe devagar, ele voa, quase se teletransporta pro futuro. Pois devia deixar de ser mal criado e ficar quieto, pra eu poder aproveitar melhor a sensação (isso foi quase um plágio de Móveis coloniais de Acaju).

      Acordo sem pensar muito no meu dia, ele não deve ser muito diferente que o anterior, uma rotina entendiante de poucas emoções. As mesmas caras, os mesmos lugares, a mesma atmosfera. É como acimentar as raízes de uma árvore, ela para de crescer, murcha e pode até morrer. Sobrará um tronco onco e podre. Carcaças.

      Eis que então uma brisa errante sopra no rosto e espalha os cabelos. Junto com o frescor do sopro, traz também o aroma das mudanças. Nada que destrua os alicerces ou provoque cataclismas; é só um fato novo que traz consigo esperança.

      A árvore que não tinha mais seiva, tendo perdido toda a sua vida, agora tem um pedacinho de terra para se alimentar. Ela ainda não dará frutos ou será uma agradável sombra e ainda terá muito o que procurar para se tornar exuberante, mas já terá uma folha. Uma cosquista. Uma esperança.

      O dia continua passando rápido e a noite já vai indo, mas a brisa suave que varre a poeira não me deixa mentir: algo bom vem vindo.

13 abril 2011

Disritmia

De pouco a pouco um salto, um descompasso marcado
desejo exasperado de possuir o que ainda não tenho
que aos poucos vai crescendo numa transmutação quase instatânea
ao ter você nos meu olhos e imaginar o teu cheiro
Deixa me embolar nos teus cabelos, misturar nossas peles
duas cobras criadas, um tanto malcriadas
outro tanto, bem servidas
e num ritmo dissimulado cada qual a sua maneira
desejando do outro um vacilo (melhor ainda, um bote alheio)
pois o receio é um charme que nos tempera por dentro
dança sem passo certo, mas de compasso intenso
acompanhado de um som teso e abafado
nessa hora tardia, com os corações disparados
a disritmia vai tomar conta do espaço...