02 novembro 2013

Os bancos, parte 1

      "Ônibus parado na rodoviária, pessoas descendo, pessoas querendo subir. Desembarcou e procurou um lugar para esperar. Ainda faltavam alguns minutos, mas a expectativa do momento faria com que aquilo parecesse horas. Talvez anos. Encontrou um banco cimento vazio, frio, sem vida, sem harmonia com o que se passava em sua mente. Era um dia de inverno, desses que normalmente faz muito frio, chove e estraga todos os seus planos. Só que esse era um dia de inverno diferente, fazia sol, o céu estava limpo e a temperatura era agradável. Olhou pro relógio, consultou o celular para ver se havia alguma nova mensagem. Pôs o fone de ouvido e começou a ouvir as músicas que queria ter guardadas na lembrança para aquela hora.

      Pessoas chegavam, pessoas partiam, quem ele esperava não aparecia. Procurava por alguém que não conhecia. Ao menos não pessoalmente. Não tão de perto que fosse possível conhecer a luz dos olhos. O conforto do abraço. Como então reconhecê-la? Instintivamente, sabia. Sentia que descobriria que era ela no momento que a avistasse, independente da distância, do ângulo, da multidão.

      Tô chegando, dizia a mensagem recebida. Nesse mesmo momento o coração bateu um pouco mais rápido. Estavam mais perto do que nunca e ainda assim era longe. Ele começou a andar de um lado para outro, pensou em dar uma volta e desistiu. Por mais que não tivessem marcado um lugar em específico na rodoviária achava que qualquer mudança poderia estragar tudo e tudo já havia sido estragado antes por causa de mudança repentinas. Não arriscaria dessa vez. Sempre é mais difícil lidar com situações incomuns quando se está num lugar praticamente desconhecido, as alternativas rápidas inexistem e a insegurança atrapalha. Definitivamente ficaria ali sentado, no banco não mais tão frio, este havia de ter recebido um pouco do calor que se condensava em pequenas gotas de nervosismo em sua testa. Nem um banco podia ser tão insensível assim.

      Sempre observava os passantes na certeza que alguma hora ela passaria ali e, tal qual um míssil guiado, seria levado de encontro. Sem erros, sem mudanças de rumo. Rota certa. Já passava da sexta música, que dizia "Quando você chega é cataploft no meu peito", e o peito já tinha feito todas as onomatopeias imagináveis. Se tinha algo que tirava seu alicerce eram encontros. Nunca fora bom nesse quesito. Esperar não ajudava em nada, melhor seria encontrar logo e se não desse certo, cair fora. Se desse certo, aproveitar o máximo. A demora não dava a possibilidade de escolher uma coisa ou outra.

      Foi então que a viu ao longe, no meio de um grupo que havia acabado de descer de um ônibus. Tinha certeza que era ela. Seu coração já lhe afirmava, sem margem de dúvida. Ela estava de costas, blusa preta, calça jeans, tênis baixo. Seguia numa direção que não ia ao encontro da sua então pôs-se a caminhar enquanto tirava o telefone do bolso e tentava ligar. Ela não só não olhou para trás como não fez gesto que mostrasse que iria sacar o telefone da bolsa. Por um tempo ínfimo se perguntou "Não estarei errado, de novo?", mas preferiu arriscar: desligou o telefone e começou a andar mais rápido. Não demoraria a alcançá-la. Já havia esperado demais. Pensado demais. Desejado demais. Ninguém deveria desistir de tudo isso por um telefone não atendido, menos ainda depois dos tantos quilômetros percorridos. Faltava pouco, muito pouco.

      Finalmente conseguiu chegar próximo o suficiente para falar com ela, que naquele momento parecia estar procurando alguém. Ele, claro. Não teria porque ter dúvidas disso. Antes, no entanto, parou e a observou. Não sabia muito o que viria depois, além da certeza de a sua vida mudaria de alguma forma no momento em que se olhassem.

      Oi, ele disse. Ela virou meio surpresa e disse oi também. Nesse momento se rendeu ao sorriso mais lindo que já viu."

Um comentário:

Janaina de Oliveira disse...

Nossa que lindo... Parecia que eu tava vendo um filme sentindo a narração ficar forte e depois calma e depois forte de novo! Fantástico! Saudade de ler suas coisas aqui. Abraços