Hoje fui ao banco resolver alguns problemas. Chegando lá vi um rapaz que estudou no mesmo colégio que eu, na mesma série, só que em turmas diferentes. Parecia ser legal, jogava futebol bem. Não sei de mais nada dobre ele. E então pensei: as pessoas são, umas para as outras, como os tempos verbais: passado, presente e futuro. Conjugar não é fácil; acertar os pronomes pessoais, menos ainda.
Nem toda pessoa merece um espaço nessa gramática de relações interpessoais. Boa parte delas são apenas H mudos, sem nenhuma serventia para a vida. Dessas não tratarei.
Existem as pessoas-passado, mais comumente acompanhadas do ver SER nas suas formas mais duras: Era e Foi. Estou aqui me referindo a primeira pessoa do singular, porém não excluo as outras. No geral cada pessoa sai (ou é colocada para fora) da vida de outrém de forma individual. Passados coletivos são mais raros. E o que faz com que essas pessoas fiquem para trás, sem direito a resgate? O tempo. Ele que é senhor dos verbos.
Nascemos, crescemos um pouco, vamos para a escola e lá temos nossos primeiros contatos com pessoas que estão em situação iguais a nossa. Todos farão parte do passado, alguns serão presente e dificilmente restará alguém no futuro. Eu mudo, tu mudas, todo mundo muda. E assim vamos colando figurinhas no nosso álbum de recordações.
Chega um ponto que poucas pessoas vão ficando na nossa vida. São as pessoas-presentes, mesmo que distantes ou ausentes. Nem todas são amiga, algumas são meras conhecidas e ainda assim estão sempre marcando presença. Elas duram o tempo do hoje, do agora. Pode ser que amanhã elas já tenham ido. Mas o futuro é incerto para sabermos quem estará presente. De outra forma, todo casamento seria eterno.
As pessoas-futuros são, exclusivamente, exercícios de futurologia. Eu posso achar (ou querer) que alguém vai estar (esteja) comigo para todo e eterno sempre. E, muito provavelmente, ela não estará. Tirando os laços famíliares, amarrados pelo costume social de ter família sempre como algo bom, todos os outros laços se desfazem. Raros são os que nunca amarraram alguém, se tornando fortes com o tempo. A força da liberdade é muito maior que as amarras da obrigação.
Esses casos são de duas vias: você também é uma pessoa-passado, pessoa-presente e pessoa-futuro. Eu, tu, ele. NÓS. O tempo não escolhe. Está amarrado em todos.
Nem sempre é bom descobrir que você mudou de pessoa-conjugação. Normalmente isso acontece tão devagar que nem se percebe. Então só restam lembranças e figurinhas para serem coladas. Mas, por vezes, a mudança é por demais perceptível e acaba causando mágoas. E o tempo (sempre ele) trata de cuidar das feridas.
Foi então que eu parei e pensei: nem tenho o que conversar com o moço. Não adianta nem dar um olá. E eu, que conheço e falo com muita gente, segui meu rumo. Como falei, o H mudo é algo que nem se deve perder tempo.