26 janeiro 2012

Nesses últimos dias

      Nesses últimos dias chovia a noite. Garoas, pancadas, chuviscos. E era só começar a cair lágrimas do céu que eu me punha fora da cama e corria. Porque correr é a tentativa inútil de alcançar um tempo que já passou e não volta. Eu corria para te livrar da chuva. 

      Então que eu lhe encontrava com um rosto de alegria, como se finalmente houvesse chegado o herói. Você se sacudia para se libertar das gotas d'água que insistiam em ficar presas em ti. Depois olhava pra mim, ria e me abraçava. Do seu jeito, meio desengonçado. Eu achava graça. Voltava pra cama e dormia mais leve.


      Eu tinha lhe prometido algumas coisas. Nunca mais poderei cumpri-las. Nunca consegui dar aquele passeio na praia. Fico pensando com seria você todo sujo de areia, correndo de um lado pro outro. Será que gostaria das ondas? Ao contrário do que acontece normalmente, você gostava de banho. Se divertia. Quem sabe corresse atrás dos caranguejos. Tenho certeza que colocaria a língua pra fora e deitaria com menos de meia hora. Essa seria a hora de conversarmos e eu lhe explicaria algumas coisas que você não entendesse. Mas agora sou eu quem não entendo.


      Não entendo porque a decisão a ser tomada foi exatamente a pior. Não entendo porque nunca me dão ouvidos. Nunca soube o que é ter dado uma opinião. Nunca saberei como teria sido ir a praia contigo.


      Esses dias também choveu a tarde. Lembro que eu lhe chamava pra passear e quando me preparava... caia a chuva. Não demos nosso último passeio. Nem nunca mais passamos uma noite no quintal, entre lua e estrelas, vinhos e vela. Talvez um livro, talvez música. Quase sempre você acabava dormindo, mas era só eu pensar em me levantar da cadeira que você despertava. Isso era bom. Um dia entenderei porque decidiram que não seria mais. Não existiria mais.


      Como todo mundo que conheço bem, você tinha suas manias. Achei tão estranho chegar em casa e não te escutar. Não poder falar com você. Não poder rir com você. Deve ter sido por isso que ao chegar em casa me tranquei no quarto, sozinho, e chorei. O silêncio me fez vazio. Dormi.


      Não tinha esperança de lhe encontrar quando acordasse. Todas as esperanças foram embora desde o momento que lhe procurei pela casa e não te encontrei. Entendi o que aconteceu, mesmo sem querer acreditar. Foi covardia o que fizeram. Isso não tem perdão.


      Os dias vão se seguir, um após o outro. Para mim. Para você, os últimos foram aqueles dias de chuva...

4 comentários:

Thamires Figueiredo disse...

Perdemos muitas coisas sem entender, me parece ser lei da vida andar por ai perdendo coisas/pessoas/sentimentos. Mas agora eu entendo. Juntei uma foto, uma legenda e essas palavras chorosas que encontro por aqui. Sofri o seu sofrimento. Já passei por isso e seu o que é perder um amigo tão fiel como era o seu. Triste, eu.

Akemi de Queiroz Sakaguchi disse...

Lamento as perdas, são as lacunas que o tempo deixa em nossas vidas e, são insubstituíveis. Ando vagando pelos blogs e o que mais encontro é tristeza, saudade...Também encontro o contrário, mas não supera a quantidade de lamúrias, que muitas vezes me parecem familiar. Sinto muito pelo seu... cão? Deu a entender que era.
Você escreve bem, consegue passar o sentimento para as palavras, é quase como ouvir e sentir, parabéns!!!

marihuannah2 disse...

Voce é incrivel! Queria muito ter seu contato! um beijo nesse coração aiii! Espero que tudo fique bem! s2

Natália Vertelo disse...
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