Acompanha está carta um presente
Que embrulhado em abraços
E enfeiado com alguns sorrisos
Haveria de ser entregue pessoalmente
E do destino espera-se tudo
A alegria, a dor
A surpresa, o susto
O inesperado chega pra todo mundo
O presente chegará ao destino
Numa embalagem de papel e durex
Que algum estranho a entregará
E isso, no fim, não faz sentido
O medo destrói tudo, não deixa margem
E lhe peço que ouça Guimarães Rosa
Para descobrir o que a vida nos cobra:
Coragem, meu bem! CORAGEM!
30 junho 2015
Pedido
09 fevereiro 2015
Beira mar
Veja bem menina
A vida tem dessas coisas
de rir, de chorar,
de dizer que não dá pra amar mais
E assim os dias
não cansam de passar
Recebe bem menina
O que lhe traz de sereno o mar:
Ondas nas pernas a bater
Brisa nos cabelos a soprar
Areias pros pés mover
Tempo para pensar.
Guarda bem menina
só o que encontrar de bom
deixa vir o que vier
e chore quando quiser
que o coração ama sempre puder
seja lá quem for
27 dezembro 2014
Os bancos, parte final
"Por entre árvores da praça que seria o cenário recorrente dos encontros, avistaram o fim de tarde, sol se pondo por trás dos morros no horizonte. O pequeno cinema oferecia um lindo filme que contava a história de uma mulher forte que correu atrás dos seus sonhos quando todos diziam para que ela desistisse. Violeta foi para o céu. Sentaram na última fileira de bancos e enquanto esperavam as luzes apagarem, se beijaram. Um beijo breve, quase que roubado. Um beijo doce, quase impossível. Do beijo, fez-se o riso, um sorriso contido, quase envergonhado. Outro beijos se seguiram e sem perceber o cinema, mas pessoas, o filme, tudo tinha desaparecido. Eram só eles dois, descobrindo-se, chegando a lugares um do outro onde nunca estiveram antes. Acendem-se as luzes. Fim.
E o que parecia mais um romance de final feliz desemborcou em outro clichê: o drama imbecil. Como se gato e rato, ele a procurava, ela fugir. Inalcançável, impossível. E assim o amor foi se esmaecendo, transformadas em desbotadas lembranças cores que as flores da praça um dia tiveram enquanto conversavam em um banco.
Mas o amor é algo imprevisível e surge quando menos se espera, de onde não se imagina. Ela ressurgiu, como se nada tivesse acontecido, falando dos dois juntos e como tudo poderia ser bom dali pra frente, fazendo o peito dele se encher de esperanças, sentado na poltrona em frente ao computador, milhares de quilômetros longe dela, querendo pegar em sua mão e mais uma vez provar daquele beijo.O O tempo foi passando, a vida seguindo e o desejo de se reverem sendo regado a cada bom dia dado.
Quase um ano se passou até novamente ele se ver cercado de bancos num aeroporto, prestes a voltar à cidade onde há beleza no horizonte. E foram bancos de avião, de ônibus, de carros até o retorno ao banco da praça. Mais uma vez a presença dela transformava o mundo em um detalhe esquecível. Foram ruas, igrejas, museus, cadeiras, sofás e bancos, tudo muito lindo, tudo ao lado dela. Ele viu a beleza dela refletida no vidro da janela, ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando ela, ao tomar um susto, apertou a sua mão e se encostou em seu ombro. Sentiu que tudo fazia sentido.
Voltaram ao mesmo cinema da outra vez, onde se beijaram como quem rouba manga da casa vizinha, mas dessa vez tudo foi diferente. Mal havia começado o filme, tiveram que ir embora. Na dúvida entre esperá-la voltar ou passear solitário o resto do dia, depois do beijo de despedida ele sentou e tomou um suco de laranja.
Mal ele imaginava o qual amargo seria aquele suco e que a última vez que a veria seria quando aquele par de all stars vermelhos dobrou a esquina."
21 julho 2014
Cercado
Planta, rega, nasce, cuida e colhe
amor é terra fértil e arejada
donde brotam as paixões desvairadas
desejos floridos
sonhos infrutíferos
Em botão fechado se mostra a rosa
não se sabe bem a sua cor
e vai aprendendo com a vida, velho jardineiro,
espinho de planta nova ainda machuca
os dedos.
17 junho 2014
Jujuba verde
"Escurece
cresce tudo
que carece"
Paulo Leminski
Dia de inverno, chuva, frio, vontade de fazer nada durante o expediente. Assim seria mais um dia normal, como quase todo dia, beberia muita água e por causa do frio iria muito ao banheiro, ficaria desejando dar meia dia para poder almoçar e depois do almoço desejaria que o expediente acabasse, daí voltaria pra casa. Pra quê? Pra nada, mas ainda assim era melhor que nada no trabalho. Entre relatórios, notas fiscais, atas e mais alguns documentos, uma frase ou outra trocada com quem estivesse a volta, apesar de não ser dia nem de trocar palavras. O nada em casa era o seu sonho de consumo instantâneo. E o que fazer até chegar ao paraíso? Nada...
Numa dessas alguém abre a porta da sala, dá bom dia, pede licença e com um rodo e um pano velho vai passando desinfetante na sala. E isso seria mais um item a ser riscado da rotina se não fosse algo incomum. Não entendeu o que se passava, mas algo estava diferente e diferenças não são coisas normais no ambiente de trabalho, então tirou os fones de ouvido e só então percebeu que o que havia de diferente era o cheiro do desinfetante. Cheiro forte, insistente, cítrico. Não era dos melhores, supôs.
Aquele cheiro que não ia embora aos poucos fez ele lembrar de jujubas, mais especificamente as jujubas verdes. Não que fossem suas preferidas (gostava das vermelhas), muito menos que o cheiro da jujuba verde fosse igual àquele que empesteava a sala, mas a lembrança veio de supetão e sem dar muito tempo ao cérebro de entender o porque daquelas sinapses fora de nexo. Então pensou que lembranças não são coisas que vem, que entram na gente: elas já existem do lado de dentro e pouco importa o que as tiram do sono profundo. Elas vão aparecer, mais hora, menos hora. Algum cientista vai dizer que estudo apontam as causas dessas ligações estranhas da mente humana. Balela das brabas, essas coisas não se estudam. Se sentem.
Puxadas pela jujuba verde vieram outras tantas lembranças, novas, velhas, algumas já esquecidas. E lembrança quase nunca chega sozinha, sempre traz consigo alguém a reboca. Saudade, tristeza, alegria. A lembrança cítrica da jujuba verde carregava consigo um desejo, daqueles que a certa altura da vida já se começa a ter certeza que só vai se realiza na próxima encarnação (se houver). Lugar de trabalho não é propício para desejos, no geral eles não permitem nada além de reproduzir o comportamento padrão da rotina. Desejo não é padrão, não é rotina. Normalmente o desejo é a fuga, é a mudança, é a antítese do local de trabalho.
Tinha que se decidir entre a rotina e o desejo. Era um dia de inverno, chuva, frio, aquela preguiça de tudo na vida, inclusive de alimentar desejos. Colocou os fones de ouvido e voltou aos relatórios, não sem antes anotar em algum papel que foi esquecido nalguma gaveta: comprar jujubas coloridas.
04 abril 2014
Madrugada
12 dezembro 2013
Os bancos, parte 2
"Passos curtos, sem pressa, caminhando calmamente sob as sobras das árvores. Não parecia que ali era uma grande avenida, carros e ônibus passando a toda velocidade, como se vida acabasse na próxima esquina. Inocentes: a vida tinha começado a pouco.
Os olhos não se viam, as mãos não se tocavam, as palavras era quase mudas e nada disso impedia de sentir a felicidade de estar ao lado dela. As pessoas passavam, mas nenhuma delas tinha importância. Só ela. Tímida, um tanto distante. Não havia diálogos, as trocas de sensações se davam no desconhecido da imaginação. Quantas noites já haviam sido viradas em claro em conversas que não se sabia o começo e nem se imaginava o fim. Quantas declarações veladas de querer não teriam se perdido nas interpretações? Ali começava o momento de se descobrirem. Não havia pressa. Só havia eles.
Andaram até chegar. Uma praça. Parece que os romances precisam de praças, dessas com árvores, bancos, pássaros e flores. Dessas onde os amores (e os amantes) se sentem livres. Liberdade. Vagaram sem rumo em paralelepípedos que poderiam contar mais histórias que todos que os pisavam naquele momento conseguiriam imaginar. Sol batia e não havia calor, o inverno tem dessas coisas. Ficar próximo era também se aquecer, instintivamente a distância ia diminuindo a cada momento.
As conversas começaram a acontecer, era delicioso escutar tão de perto aquele sotaque que tanto encantava ao telefone durante as poucas ligações que trocaram. A sintonia ia se afinando, ele percebendo a pele branca e os olhos castanhos. Trocavam sorrisos, daqueles que saem por qualquer coisa, que surgem por nada.
Sentaram num banco. Banco, este, que era como todo banco de praça deveria ser, madeira pintada de branco sobre armação de metal. Fazia sombra, alguns jovens faziam barulho por perto. Pessoas corriam, levavam cachorros para passear, pássaros vez por outra cantavam. O pouco do espaço vazio entre eles era o que faltava para tudo não ter volta e esse era o mais difícil de transpor. E o destino, por suas vias tortas, fez sua parte, lançando ao encontro dos dois o desconhecido. Fala embolada, porém eloquente, roupas rotas e toda a falta de amarras que são características dos loucos (esta última também dos cupidos). Lançados pensamentos e verdades no ar, fez com que a garota se sentisse acuada com sua presença e procurando refúgio ao lado daquele que há muito queria estar tão perto. Quem tivesse olhado o casal ao chegar na praça não teria percebido mudança alguma, ainda se tratavam de um rapaz e uma moça passeando, conversando e rindo. Para ele, muito havia mudado. Conversaram por um bom tempo, ele mais a vontade com o louco, ela mais a vontade com ele e um pouco temerosa com o esfarrapado prostrado à sua frente. De um modo bem suave eles se despediram do louco e seguiram rumo à lanchonete próxima.
Atravessaram a rua, fizeram seus pedidos e ficam a conversar. Ela mais a vontade, até puxava assunto. Parecia se sentir mais segura ao lado dele depois da visita inesperada na praça. Ele comia porque em algum lugar do corpo dele haviam sinais inaudíveis de fome, mas ele pouco dava atenção a isso. Entre sanduíches e batatas fritas, segurou na mão dela e não quis largar. O tempo era agora, o lugar era ali. O sol já tentava se por deixando o céu num degradê rosa que só deixava o sorriso dela mais bonito. Devia emoldurar. Guardou na memória, havia de lembrá-lo sempre que possível.
O cinema ficava logo ali do outro lado praça. Seguiram, de mãos dadas, rumo aos próximos bancos...
02 novembro 2013
Os bancos, parte 1
"Ônibus parado na rodoviária, pessoas descendo, pessoas querendo subir. Desembarcou e procurou um lugar para esperar. Ainda faltavam alguns minutos, mas a expectativa do momento faria com que aquilo parecesse horas. Talvez anos. Encontrou um banco cimento vazio, frio, sem vida, sem harmonia com o que se passava em sua mente. Era um dia de inverno, desses que normalmente faz muito frio, chove e estraga todos os seus planos. Só que esse era um dia de inverno diferente, fazia sol, o céu estava limpo e a temperatura era agradável. Olhou pro relógio, consultou o celular para ver se havia alguma nova mensagem. Pôs o fone de ouvido e começou a ouvir as músicas que queria ter guardadas na lembrança para aquela hora.
Pessoas chegavam, pessoas partiam, quem ele esperava não aparecia. Procurava por alguém que não conhecia. Ao menos não pessoalmente. Não tão de perto que fosse possível conhecer a luz dos olhos. O conforto do abraço. Como então reconhecê-la? Instintivamente, sabia. Sentia que descobriria que era ela no momento que a avistasse, independente da distância, do ângulo, da multidão.
Tô chegando, dizia a mensagem recebida. Nesse mesmo momento o coração bateu um pouco mais rápido. Estavam mais perto do que nunca e ainda assim era longe. Ele começou a andar de um lado para outro, pensou em dar uma volta e desistiu. Por mais que não tivessem marcado um lugar em específico na rodoviária achava que qualquer mudança poderia estragar tudo e tudo já havia sido estragado antes por causa de mudança repentinas. Não arriscaria dessa vez. Sempre é mais difícil lidar com situações incomuns quando se está num lugar praticamente desconhecido, as alternativas rápidas inexistem e a insegurança atrapalha. Definitivamente ficaria ali sentado, no banco não mais tão frio, este havia de ter recebido um pouco do calor que se condensava em pequenas gotas de nervosismo em sua testa. Nem um banco podia ser tão insensível assim.
Sempre observava os passantes na certeza que alguma hora ela passaria ali e, tal qual um míssil guiado, seria levado de encontro. Sem erros, sem mudanças de rumo. Rota certa. Já passava da sexta música, que dizia "Quando você chega é cataploft no meu peito", e o peito já tinha feito todas as onomatopeias imagináveis. Se tinha algo que tirava seu alicerce eram encontros. Nunca fora bom nesse quesito. Esperar não ajudava em nada, melhor seria encontrar logo e se não desse certo, cair fora. Se desse certo, aproveitar o máximo. A demora não dava a possibilidade de escolher uma coisa ou outra.
Foi então que a viu ao longe, no meio de um grupo que havia acabado de descer de um ônibus. Tinha certeza que era ela. Seu coração já lhe afirmava, sem margem de dúvida. Ela estava de costas, blusa preta, calça jeans, tênis baixo. Seguia numa direção que não ia ao encontro da sua então pôs-se a caminhar enquanto tirava o telefone do bolso e tentava ligar. Ela não só não olhou para trás como não fez gesto que mostrasse que iria sacar o telefone da bolsa. Por um tempo ínfimo se perguntou "Não estarei errado, de novo?", mas preferiu arriscar: desligou o telefone e começou a andar mais rápido. Não demoraria a alcançá-la. Já havia esperado demais. Pensado demais. Desejado demais. Ninguém deveria desistir de tudo isso por um telefone não atendido, menos ainda depois dos tantos quilômetros percorridos. Faltava pouco, muito pouco.
Finalmente conseguiu chegar próximo o suficiente para falar com ela, que naquele momento parecia estar procurando alguém. Ele, claro. Não teria porque ter dúvidas disso. Antes, no entanto, parou e a observou. Não sabia muito o que viria depois, além da certeza de a sua vida mudaria de alguma forma no momento em que se olhassem.
Oi, ele disse. Ela virou meio surpresa e disse oi também. Nesse momento se rendeu ao sorriso mais lindo que já viu."
27 agosto 2013
Alento
Foi paixão
E ainda que não tivesse sido
Teria magoado o coração
É amor
e mesmo que não seja
ainda assim se finge amado
Terá um fim
E mesmo que não tenha
Algo terá começado.
14 julho 2013
Arado
Onde está a justiça do mundo
que permite a um querer de tão pouca idade
plantar tanta saudade
no peito?
Dessas coisas do coração, nunca aprendi como
cativar amor em liberdade
viver numa prisão sem grade
e querer nunca ser solto
O poço fundo da solidão um dia acaba
e na tormenta da maldade
vive-se a crua realidade
dos amores mortos à faca
13 maio 2013
08 abril 2013
Saudadeando
Veja só o que você fez
desistiu sem ter tentado
deixou largado, à tôa
o que era pra ser seu
carregarei comigo essa mágoa
quem sabe o tempo apaga
a minha alma não é tão boa
pra fingir que não doeu
A Liberdade machuca o peito
quando lembro daquela chuva
o pensamento pra longe voa
enterrando o bem querer que já morreu.
Sem fantasias
Roupas, máscaras e maquiagem. O carnaval dá vida a muitos personagens que existem dentro de nós. Sob o signo da liberdade inconsequente, tudo é permitido. Alegria, alegria, mesmo que efêmera.
E eu me pintei com as cores do dia a dia. Nunca aprendi a ser outro além de mim. Me fingir Pierrot ou Arlequim nunca foi a graça do meu carnaval. Ser o de sempre já era alegoria sufiente para curtir a folia de Momo.
Mas todos temos fantasias guardadas nos armários das lembranças e vez por outra temos que colocar o bloco do eu sozinho na rua e desfilamos nossos anseios e desejos. Ninguém sobrevive sufocando eternamente os próprios quereres.
Arejadas as lantejoulas (já opacas pelo gastar do tempo), penduramos a fantasia no cabide do esquecimento até o próximo carnaval.
06 abril 2013
Acabou de acabar
Então vieram as lembranças dos dias bons, dos abraços e dos sorrisos. Risada saindo fácil, leve e solta pelo ar. Dias em que o frio ainda tomava conta da barriga. Passeios, cinema, jantares. Todos os itens do romantismo clássico (e talvez ultrapassado, para alguns) utilizados com o único objetivo de ser feliz.
A sucessão de dias foi sucedida pelo vazio. Pelo não ser impedido pelo não estar. Pelo fim. Acabou de acabar.
Então a saudade se foi, sem hora pra voltar.
13 março 2013
(Im)Pulso

Eu tenho um coração.
Eu tenho um coração que pulsa.
Eu tenho um coração que pulsa, quando estou em paz, em média 60 vezes por minuto.
E em cada pulsação dessa meu sangue é enviado para o resto do corpo e retorna ao coração.
Meu coração.
Eu tenho um.
Coração.
Como você já sabe, eu tenho um coração.
Um coração que pulsa disparado, em média, mais de 100 vezes por minuto quando estou em perigo.
E em cada vez que lhe beijei, meu coração disparou.
Eu senti o perigo.
Meu coração, também.
Eu tenho um.
Coração.
Coração.
Aquele que é meu.
Que pulsa.
Que sente.
Que dispara.
Meu coração pulsa 60 vezes por segundo.
Eu vivo a cada pulsação.
Ele pulsa pelo sentir.
Pelo disparar.
Pelo perigo.
Meu coração pulsa várias vezes por minutos.
Mas nenhuma delas é por você.
16 janeiro 2013
15 janeiro 2013
O som ao redor
"Cama, guarda roupa, ventilador, computador e violão. Um quarto simples, de alguém nem tão simples assim. Não precisava de muita coisa além disso, um pouco de água e alguma coisa pra enganar a fome até a hora da barriga roncar, como que avisando sobre os problemas da inanição. Não era só de alimentos que a barriga reclamava, nem todo carboidrato do mundo consegue saciar os sentidos. Os sentimentos.
Havia espaço demais. Na cama, no guarda roupa, no peito. Imensos latifúndios improdutivos, plantados de desejos não concebidos. Nas cordas do violão não encontrava tranquilidade, cabeça inquieta e voando longe. Nunca soube tocar e ainda assim achava seus caminhos por entre lás e dós, esperando a hora que o sol iluminasse a penumbra. A luz não veio.
E no entanto a música há de salvar. Se não a própria, filha deformada parida a fórceps; as de outros e outras, belas crianças que crescem e seguem seu rumo. E naquele parque de diversões de músicas com pai e mãe, algumas são escolhidas para brincar. Aos poucos o vazio não é tão incômodo, se fazendo de ar para refrescar. A cama não parece tão vazia e o violão já virou um par, parceiro mudo que sabe a hora de calar.
Sem se dar conta, uma música carrega entre sua melodia uma saudade, que se aconchega no travesseiro macio da solidão. Sons transformados em imagens, reais e vivas e ilusórias. E sabia que aquilo tudo foi sem nunca poder ter realmente sido. Os abraços, os sorrisos, os beijos. Imagem de som te cheiro, tem tato e tem paladar. Não queria lembrar da multidão que envolvia, só de belos olhos negros que vez por outra diziam coisas belas antes de calar a própria boca com outra boca. A sua boca.
Músicas não tem donos. Elas não pertencem a alguém, a algum lugar ou a algum momento. Elas são livres para serem o que quiserem. E essa música era pura saudade e foi quando o verso lhe abriu o coração:
"Is that a ufo or a shooting star?"
Foi tudo aquilo algo fora da compreensão ou, como uma estrela cadente, algo tão efêmero e intenso que se apoderou de uma música para mandar recado? Então talvez tenha direito a um desejo: libertar a música.
Abraçou a saudade, o travesseiro e deu boa noite ao violão.
19 maio 2012
Retorno
Foi você, morena
quem me fez sonhar
e pensar que tudo seria um par,
um lar com jardim
sempre chegada e nunca partida
Vai
Que a saudade dói no coração
De quem tem peito demais
Para viver uma vida
Em despedida
E não vá acusar o destino
pois o vento guia a caminhada
os desatinos do tempo são companheiros
de quem tem o horizonte como chegada.
Então vem
Que a saudade encontra a paz
Quando a gente se encontra
e que o desassossego de não estar
é uma lembrança que nunca vai embora
quando sempre se espera a volta.
02 março 2012
Um sopro
Toda a noite é o mesmo frio. Um frio seco e áspero, como lixa desgastando o viver. Pouco a pouco congelando a esperança, transformando-a em floco de neve que, teimando em ser mais pesado que o querer se perde entre tantos outros flocos.
E o frio vai tornando tudo mais difícil, mais distante, mais opaco. O futuro é só uma lembrança distante, algo que nunca chega e, ainda assim, já passou faz tempo. Não há verão, outono ou primavera; invernados os ponteiros do relógio e tudo se torna árido. Houve vida um dia, hoje apenas se ouve o silêncio do tempo.
Mas nessa noite eu deixei aberta a janela do desejo e me soprou, leve e aconchegante, uma brisa. Desagasalhei o coração para que, livre todas as camadas de proteção que os desamores nos fazem carregar, pudesse mais uma vez sentir o beijo suave do vento.
Quanto mais a brisa sopra, mais poças se formam pelo descongelar da esperança. Nelas se reflete o brilho incandescente da paixão. Há, nesse solo nu, sementes. Alguma há de vingar. Florescer e frutificar é preciso. Que seja primavera.
Do frio de toda noite, me dispeço.








