17 junho 2011

Contraluz


"Conferindo: câmera, ok; lentes, ok; cartões de memória, ok; baterias, ok; flashes, ok.

Em breve chegaria a modelo e ele teria mais uma tarde de serviços. Apesar de nunca ter pensando em ser fotógrafo, as coisas foram acontecendo naturalmente que hoje ele não se imaginava fazendo outra coisa para ganhar a vida. Assim como em qualquer profissão, havia bons e maus momentos. Particulamente preferia trabalhar com paisagens naturais e passantes desconhecidos de ruas, mercados e festas, mas também sabia que o que mais rendia dinheiro (e nome) eram católogos de modas e books. Não que esses fossem de todo ruim, mas era comum se deparar com mocinhas de 15 anos que são um pé no saco e pessoas que só queriam fazer as mesmas fotos que os avós faziam quando era jovens.

Seu renome ainda não permitia recusar trabalhos, então ainda aceitava alguns que de antemão sabia que não seria dos mais prazerosos. Seu sonho não era ser fotógrafo da capa da Playboy ou da Vip, mas ter ao menos uma fotozinha numa página qualquer da National Geographics. Se isso uma dia acontecesse ele se sentiria realizado e qualquer outra coisa depois disso seria besteira. Vez por outra ele enviava uma foto pra redação da revista, esperando ao menos uma resposta diferente do tradicional email autómatico afirmando o recebimento do arquivo. Ainda chegaria o dia.

Estava ali, no quarto de um hotel antigo no centro da cidade, aguardando a chegada da contratante. Pelo que tinha conversado, seria uma ensaio simples, feito naquele próprio quarto, com uma temática retrô. Apesar da idade o hotel se mantinha conservado e possuia um certo charme. Devia ter sido construído pela década de 50 ou 60, passado por poucas e restritas reformas, chegando aos dias de hoje misturado ao mar de fachadas e luzes que é o centro de uma cidade grande. Esperava que o trabalho não durasse mais que 2h, podendo aproveitar um pouco a luz do fim de tarde para fazer umas fotos na rua.

Eis então que alguém bate a porta. Há muito fazer trabalho para pessoas com quem ele nunca trocou mais do que três telefonemas deixou de ser algo que o deixava nervoso. Antes havia o medo de ser um trote ou até mesmo uma armadilha pra roubar os equipamentos (quem conhece um pouco de fotografia sabe o quanto isso custa caro). O tempo e a experiência o ensinou a separar o jôio do trigo.

Abriu a porta e se deparou com uma garota. Houve uma pequena exitação quanto a deixá-la entrar ou não. No telefone ele havia tratado com uma mulher que seguramente tinha a voz de quem já viveu ao menos umas 30 primaveras, enquanto que a pessoas à sua frente não deveria ter chegado a maioridade legal. Perguntou o nome dela, para confirmar que se tratava da sua cliente. Ela mostrou a identidade como resposta, provando ser quem dizia (e também confirmando sua análise inicial: 17 anos). Entraram os dois no quarto e ficaram em silêncio durante um tempo. Sendo ele a parte experiente da dupla, tratou de começar a conversar. Sabia que boas fotos só se fazem quando não há um clima de tensão e insegurança. Foi tentando aos poucos dizer como faria as fotos e em como ela queria que os desejos dela fossem correspondido. Calada, ela respondia com acenos de cabeça e sons não articulados.

Quando ela resolveu falar algo foi para perguntar se poderia se trocar. Ele disse que tudo bem, poderia começar logo a tirar as fotos. Ela carregava consigo uma mochila, provavelmente com as roupas e acessórias que gostaria de usar. Alguns minutos depois ela retorna, com um belo vestido longo, um chapéu channel, alguns brincos e colares, uma leve maquiagem pó de arroz e um sapato de salto. De alguma forma ela não parecia mais com uma garota de 17 anos, mas com uma bela jovem com seus 20 e poucos anos. Na mão, um LP. Ele achou estranho esse adereço, no que ela captou e disse:

- Isso não é para sair nas fotos. É pra fazer com que o clima do ambiente fique mais parecido com o que quero.

Curiosamente ela abriu um armário baixo e lá dentro se encontrava uma radiola antiga e, acreditem, funcional.

- Escolhi esse hotel depois de procurar bastante. A radiola é minha, trouxe pra cá hoje mais cedo. - Disse ela, demonstrando uma segurança na voz que não condizia com sua aparência inicial. Logo começou a tocar uma música francesa, com cara de filme antigo. Como se fosse mágica, um sorriso brotou no rosto dela. Pareceu ficar iluminada.

- Então, vamos começar? - disse o fotógrafo, começando a gostar daquele serviço. Pouco a pouco foram explorandos os ambientes, as luzes, as poses. As fotos saiam com naturalidade, ele pouco tendo que orientá-la. De vez enquando se pegava admirando os olhos dela pelo visor da câmera, era como se eles quisessem dizer algo. Um olhar de... desejo? Logo ele espantou aqueles pensamentos, devia ser besteira da parte dele. Depois de algum tempo, deram uma pausa e foram dar uma olhada nas primeiras fotos.


- Está gostando? - perguntou o fotógrafo.
- Estou - respondeu ela - mas acho que está faltando algo.
- O que seria?
- Ainda estou me sentindo um tanto adolescente nas fotos. Queria algo mais adulto. Nunca tive vontade de fazer um álbum quando completei 15 anos, mas agora quis fazer algo que eu não ficasse com vergonha de mostrar depois. Também quero algo bem feito e andei olhando seu trabalho e gostei do seu estilo de foto.
- Ah, obrigado. Quanto as suas fotos, o que você sugeriria para deixá-las mais a seu gosto?
- Pra começar, estou achando que estou me sentindo presa. Como imaginei que isso poderia acontecer... aceita um pouco de vinho? - disse isso já abrindo o frigobar e tirando uma garrafa de tinto, devidamente gelada. Nem esperando a resposta, serviu duas taças. - E acho que está na hora de mudar de roupa de novo. Volto já. - entregou a taça ao fotógrafo e foi se trocar.

Ele tomou um pequeno gole do vinho, mas não tinha intenção de bebê-lo todo. Além de não ser dos mais fortes para lidar com álcool também preferia manter a concentração por completo. Aquilo era trabalho, afinal.

Ela voltou com um vestido mais curto com decote, um encharpe, um batom vermelho e o cabelo preso. Trazia a taça vazia, com marcas de boca por todos os lados. Usava também luvas brancas, até a altura do cotovelo, e brincos longos. Ele de certa forma se surpreendeu como uma garota tímida estava conseguindo se transformar... numa mulher. Sem saber porque, tomou um gole demorado de vinho enquanto a observava. Ela deu um ligeiro sorriso, achando aquilo engraçado e ao mesmo tempo provocador.

- Queria tirar algumas fotos pelo corredor, pela escada. Como se estivesse voltando pra casa depois depois de um encontro, encantada, pensando no que aconteceu. O que você acha?

- Você realmente sabe o que quer. Dá próxima vez me avisa o roteiro com antecedência, posso pensar em algumas coisas também. - dizendo isso ele deu uma risada.

- É, eu sei o que quero. E normalmente consigo o que quero. - falou, olhando bem nos olhos dele.

Recomeçaram na porta do hotel, pela calçada. Ela seguia como que desfilando, flutando por entre as pedras velhas do calçamento que já vivenciaram tantas histórias. Ela realmente parecia estar apaixonada, radiante com um novo amor. Entrou na pequena recepção do hotel distribuindo sorrisos para todos os lados, sendo retribuída pelo recepcionista. Começou a subir a escada devagar, no que deu um parada e olhou pro fotógrafo por cima do ombro. Ele se pegou sendo surpreendido novamente pela sensação de que aquela garota de alguma forma o tentava conquistar. Entre um lance e outro de escada havia uma janela, ela parou e ficou observando os telhados e as nuvens. Não havia pássaros cantando, mas isso pra ela não fazia a menor diferença. Até que ponto aquilo era encenação ou era realidade, o fotografo não sabia, mas já estava se sentindo envolvido com aquilo. Olhava cada vez menos a garota como um trabalho e passava a vê-la como... uma garota apaixonada.

No corredor do quarto ela foi rodando, como se fosse uma bailarina, fazendo o encharpe dançar no ar ao compasso dos seus passos. Ele foi registrando tudo aquilo, se perguntando se as fotos ficariam tão boas quanto o que via com os próprios olhos. Finalmente entraram no quarto, ela se dirigiu a cama e ficou deitada, olhos fechados, o rosto, tocado suavemente pela mão esquerda, com o semblante radiante. O disco ainda tocava baixo, fazendo ele pensar que realmente estava numa outra época. Deixou de fotografar e ficou admirando a cena. Foi trazido a realidade pela voz suave dela (parecia, na verdade, ser outra voz):

- Como será que ficaram as fotos? Acho que agora ficaram realmente boas!

- Temo que as fotos não saiam tão boas como deveriam. Honestamente, acho que nenhum fotografo faria juz ao que pude ver.

- Assim você me deixa envergonhada.

- Ah, desculpe. Não era minha intenção. Vamos ver as fotos?

Enquanto ele ligou a câmera no computador para visualizarem melhor as fotos, ela apareceu com as taças de vinho cheias. Dessa vez ele ficou com a taça com marcas de batom. Achou graça naquilo. Então sentaram no sofá e começaram a ver as imagens. Entre um arquivo e outro, entre um comentário e alguns sorriso, percebeu um leve perfume tomando conta do ar. Era dela. Perdeu a concentração por algum momento, viajando no sentido aguçado pelo aroma. No fim achou que as imagens ficaram boas, mas de forma alguma comparáveis ao que viu com os próprios olhos. Certamente ficariam melhores com alguma edição.

Achou que o trabalho estava terminado, havia material suficiente para mais de um book de boa qualidade ali. Começou a desligar cabos e guardar tudo quando a garota falou:

- Já acabamos?

- Bem, acho que sim.

- Poxa, eu ainda tinha mais algumas coisas em mente. Será que não poderíamos fazer só mais algumas fotos? Até pago esse horário a mais, se for o caso.

- Ah, não. Tenho problemas com o horário. Fui contratado pra fazer o serviço, não para contar as horas. Se você ainda quer fazer mais fotos, podemos fazer. Só alerto para o fato de ter muita coisa boa e depois vai ser díficil e demorado para chegarmos ao álbum propriamente dito.

- Não estou preocupada com a demora. Pelo menos não com essa. Vou me trocar pela última vez, depois disso eu prometo que está terminado.

- Fique a vontade.

Antes de se trocar ela voltou a encher as taças. Mudou o disco e levou sua taça contigo. Ele ficou a espera na sala do quarto, enquanto ajustava a câmera e trocava de lente. Pouco a pouco ele foi tomando o vinho, percebendo que dessa vez ela demorava mais que anteriormente. A tarde já ia embora, luzes avermelhadas invadiam o quarto pela janela, formando um belo gradiente de cores e desenhos na parede. O vinho já tinha subido a cabeça, ele se encontrava distraído, olhando para a janela quando teve sua atenção requisitada.

Parada na passagem que separava a sala do quarto, ela se encontrava encostada, taça de vinho numa mão, um cigarro aceso na outra, vestida com um espartilho e cinta liga, cobertos por uma camisola quase transparente. Tudo preto, contrastando com com a pela branca da garota. A luz do por do sol criava sombras naquela figura hipinótica. Ele não sabia o que fazer, então continuo olhando-a, de cima a baixo.

Aos poucos ela foi se aproximando, pé ante pé, enquanto tomava um gole de vinho e dava um trago no cigarro. Ele começou a fotografá-la de qualquer jeito. Ela desfilou de um lado para outro, cada vez mais próximo a ele, fazendo caras e bocas e poses. Ele já não tinha dúvidas de que ela queria seduzí-lo, como também não tinha de que ela já havia conseguido. Ele a desejava. Mas aquilo não era certo, ela era de menor. Uma menor que preparou tudo aquilo, de forma planejada, detalhe por detalhe... porém ainda assim ela era menor de idade. Ela tirou a camisola vagarosamente, deixando que ela escorresse pelo seu corpo até chegar tocar o chão. Manhosamente ela se abaixou para pegá-la e depois jogá-la na direção dele. O tempo que ele levou para tirar a camisola de cima da câmera foi exatamente o mesmo que ela levou para dar os últimos passos. Estavam parados frente a frente. Ela deixou a taça sobre a mesa. Retirou a câmera das mãos dele e também a colocou sobre a mesa. Empurrou-o sobre o sofá, sentou sobre o seu colo e soltou uma leve baforada de cigarro em seu rosto.

- Bem, acho que ainda preciso da máquina para fazer as fotos.

- Você não vai precisa de máquinha alguma para o que vamos fazer agora. E pode ter certeza que não serão fotos.

Se estudaram. A diplomacia do iminente tomou as rédeas do entrave. O silêncio dos olhares era inversamente proporcional ao som que os corações disparados produziam. Numa negociação em que a parte relutante (ele) não era convencida pela parte decidida (ela) apenas pelo olhar, lábios sedentos entraram em ação. Mordendo levemente a própria boca, ela se aproximou dos lábios dele. Estes institivamente se entreabriram, certos da sua vitoriosa derrota.


Ela então começou a recolher seu espólio de guerra. Primeiramente, um beijo. O que tomou pra si depois não entrou nos livros de história...

4 comentários:

Carol disse...

\o/ \o/ fiquei na dúvida se queria ser o fotógrafo ou a garota. Sensacional!

Tattiely Nayla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thamires Figueiredo disse...

Eu preferia estar na pele do fotógrafo, ser surpreendido é uma ótima sensação e eu adoro :*

Marília Gabrielle disse...

Sensacional, Thito. Amei!
Já pensou em reunir suas crônicas (são crônicas?) num livro?
Bjo!